Cultura organizacional

Autonomia ou Independência: qual a diferença?

Imagem de uma criança com asas de papelão, simbolizando a autonomia.
Imprimir artigo

Muitos dos desafios que temos mapeado em clientes do Qualiex estão ligados à autonomia. São profissionais em busca de estimular autonomia nas pessoas, seja em que aspecto for:

  • Autonomia na tomada de decisões;
  • Autonomia na tratativa de NCs;
  • Autonomia na gestão de documentos;
  • Autonomia na execução de auditorias;
  • Etc, etc, etc.

E eu acho isso ótimo! Acredito que as pessoas estão despertando para a importância desse assunto. Que elas estão começando a entender que a autonomia é umas das chaves para a velocidade e até mesmo para excelência.

Entretanto, tenho feito algumas reflexões ultimamente, e vejo que em meio a tanta boa vontade, às vezes acontecem alguns enganos. A gente meio que confunde as coisas. Buscamos uma coisa com objetivo em outra. Esse processo equívoco pode até trazer algumas boas surpresas, mas no geral causa frustração e quebra de expectativas.

Por isso, resolvi escrever esse texto e tentar esclarecer um pouco essa tal de autonomia e suas diferenças em relação à independência.

Primeiro, o que não é autonomia!

Em alguns casos, as pessoas procuram por autonomia esperando que os colaboradores tratem as não conformidades, revisem os documentos no prazo, analisem os indicadores, etc.

Aqui, na verdade, elas só querem que as pessoas cumpram o que é preciso para o bom andamento do trabalho. Puxando meu último texto, elas não querem que as pessoas procrastinem as rotinas da qualidade.

Se você busca isso, sinto dizer, mas você não está buscando autonomia. Aqui, temos apenas a busca por um processo que realmente funciona. Com rotinas bem estabelecidas e focadas na melhoria continua. (o que, por sinal, é essencial e correto também! Não me entenda mal)

Mas entenda, isso não é autonomia! É apenas compromisso com os combinados, em outras palavras, e um “cumprir as responsabilidades”.

Segundo, o que é autonomia

Se recorrermos à psicologia, autonomia é a capacidade de se autogovernar, tendo livre arbítrio para agir e defender seus valores. Assim, um ser autônomo não executa ações porque elas foram imputadas a ele, mas por compreender e se sentir parte delas.

Na autonomia de verdade, temos um misto de aptidões que agem em prol do livre-arbítrio e da consciência das atividades. Assim, existe:

  1. a competência necessária para execução;
  2. existe o senso de pertencimento em torno do processo e da empresa, e;
  3. existe a necessidade/capacidade de ter domínio sobre o que é preciso executar.

Se você quer apenas que as pessoas cumpram os prazos (que não é pouca coisa também, eu sei), você quer apenas que elas cumpram o que lhes foi determinado. Nesse caso, você não está estimulando autonomia como um todo, apenas a 3ª aptidão, e ainda assim de forma muito rasa e superficial.

Isso vai ajudar a melhorar os processos? Vai! Mas qualquer situação que fuja do preestabelecido, que esteja fora dos indicadores ou da NC aberta, vai continuar fora de lá! Afinal, só estamos trabalhando para que as pessoas “cumpram os combinados”, cumpram o que lhes foi determinado.

Dessa forma, ter autonomia significa enxergar o processo como um todo e atuar para que ele seja completo e melhore. Não importa se o problema começa ou não na sua área ou setor, o importante é garantir que ele não vai afetar a qualidade do produto ou serviço final.

Quando o colaborador tem autonomia, ele vai a fundo nas questões e traz à tona os problemas. Ele debate soluções e se incomoda com o que está errado. E isso acontece porque ele sabe que tem responsabilidade por isso também, pois faz parte de um todo maior. Ter autonomia de verdade é entender que a empresa é uma só e que todos tem de remar na mesma maré.

Terceiro, o que é independência

A independência é um efeito negativo da autonomia mal trabalhada. Ela ignora o todo e faz com que as pessoas atuem focadas apenas em si mesmas, nos seus processos ou objetivos. Se na autonomia contamos com o senso de pertencimento, na independência impera a individualidade. Li uma frase em “um blog gringo” que resumiu bem isso:

“Independência significa que você não precisa nem aceita ajuda, recursos ou cuidados de outras pessoas. Você funciona sem os outros”

Você entende como isso afeta diretamente o senso de pertencimento existente na autonomia? E como é fácil confundir independência e autonomia…

As pessoas independentes também têm o espírito proativo, também querem resolver as coisas. Entretanto, às vezes inconscientemente, agem sem entender que fazem parte de um processo maior. Elas não têm visão sistêmica para entender que, às vezes, ajustar algo somente na etapa delas do processo pode, por exemplo:

  • Atrapalhar (ou até inviabilizar o trabalho de) muita gente lá na frente;
  • Gerar um não conformidade ou uma quebra de expectativa de alguma parte interessada;
  • Ignorar os riscos e os impactos desses riscos, gerando imprevistos e situações de estresse/prejuízo para a empresa e outros colaboradores;
  • Omitir uma melhoria que poderia beneficiar muito mais colaboradores.

Assim, quando uma pessoa autônoma identifica o problema, ela roda um PDCA, mesmo sem saber. Ela levanta causas, debate com os envolvidos, executa as ações e padroniza os resultados depois, pois compartilha com os outros os resultados.

a pessoa independente até resolve o problema, mas só para ela mesma e nem sempre do jeito certo. Muitas vezes com resoluções não tão sólidas e consistentes, pois são fruto da visão limitada delas mesmas.

Autonomia é competência e não dom

Vale a pena reforçar que ser Independente ou Autônomo não uma característica imutável das pessoas, é um comportamento! Quase uma competência (se não for). Às vezes, esses comportamentos ocorrem por falta de atenção, não planejados e não trabalhados, ou por quaisquer outros motivos, e como consequência agimos de forma independente ou autônoma.

Dessa forma, gostaria de ressaltar 2 coisas para concluir esse artigo:

  1. Eu não acredito que alguém seja independente de propósito ou por maldade. Que saia executando tarefas ou planos que vão conscientemente prejudicar outras pessoas. Acredito que seja apenas por falta de visão mesmo. Um nível de consciência que precisa de ajustes;
  2. Além disso, para muita coisa, acredito que todos somos autônomos e bem-resolvidos, que conseguimos atuar e resolver do jeito certo. Entretanto, para outras, somos muito independentes, fechados e até um pouco cegos. E pagamos o preço alto por isso.

Dessa forma, nosso papel, então, é identificar em que momentos somos independentes e, depois disso, trabalhar para nos tornarmos cada vez mais autônomos. Igualmente, como gestores, nosso papel é ajudar outras pessoas a identificar isso também, e ajudá-las a trabalhar para que a autonomia, pouco a pouco, tome conta delas.

E quando digo “ajudar”, estou me referindo a qualificar as pessoas em seu trabalho e em visão sistêmica, para que, assim, elas tenham autonomia nos assuntos que precisam ter e enxerguem os impactos das suas atividades em toda a empresa.

Pouco a pouco, nossas empresas e equipes vão deixando a independência de lado e tornando-se um coletivo autônomo que luta para chegar ao mesmo destino. Quando isso acontece, as coisas começam a dar certo, a fluir e evoluir, porque tudo, absolutamente tudo, que é coletivo, é muito mais forte! (Ao menos, é nisso que eu acredito!)

Autor

Comentários

Posts Relacionados

Imagem de uma sala de treinamentos com as pessoas assistindo a uma palestra, simbolizando a diferença entre "avaliar treinamentos" e "avaliar a eficácia dos treinamentos".
← Post mais recente
Avaliar treinamentos é diferente de avaliar a eficácia dos trei...