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Controle de Saídas Não Conformes (ISO 9001 – Item 8.7): Guia Técnico

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Victor Assis

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Victor é graduado em Jornalismo e atua como profissional de Marketing. Apaixonado por contar histórias e criar conexões através da comunicação. Faço parte do time de Marketing da ForLogic e do Qualiex, gerando conteúdo para aproximar a Qualidade de mais pessoas. Sou produtor do Qualicast, o 1º e maior podcast sobre Gestão da Qualidade no Brasil. Você pode me encontrar no Instagram ou no LinkedIn

Controle de Saídas Não Conformes (ISO 9001 – Item 8.7): Guia Técnico Completo


O controle de saídas não conformes é um dos requisitos mais operacionais e críticos da ISO 9001:2015. Previsto no item 8.7 da norma, ele determina como a organização deve identificar, segregar, tratar e registrar qualquer produto ou serviço que não atenda aos requisitos especificados, antes ou depois da entrega ao cliente.

Quando bem implementado, vai muito além de uma exigência de certificação: torna-se um mecanismo efetivo de proteção ao cliente, de redução do custo da não qualidade e de alimentação contínua do ciclo de melhoria.

Neste guia técnico, você vai encontrar a interpretação aprofundada do requisito, exemplos práticos por setor, os erros mais comuns identificados em auditorias, indicadores de desempenho e tudo que analistas e gestores da qualidade precisam para dominar esse item da norma.

Sumário

  1. O que são saídas não conformes?
  2. O que diz a norma: leitura técnica do item 8.7
  3. Interpretação aprofundada dos requisitos
  4. Disposição de saídas não conformes: as quatro opções
  5. Documentação e rastreabilidade: o que a norma realmente exige
  6. Exemplos práticos por segmento industrial
  7. Erros comuns no controle de saídas não conformes
  8. Indicadores de desempenho recomendados
  9. Boas práticas e dicas para auditorias
  10. Integração com outros itens da norma
  11. Como a tecnologia pode ajudar
  12. FAQ – Perguntas Frequentes

1. O que são saídas não conformes?

No universo da gestão da qualidade, uma saída não conforme é qualquer produto, serviço, material ou resultado de processo que não atende aos requisitos especificados — sejam eles definidos pelo cliente, pela organização, por regulamentos legais ou por normas técnicas aplicáveis.

O conceito parece simples, mas na prática operacional de uma indústria, identificar o que é ou não uma não conformidade exige critério técnico, referências claras e um sistema bem estruturado. Uma peça com dimensão fora da tolerância, um serviço entregue com atraso que viola um SLA contratual, um lote de matéria-prima que falha na inspeção de entrada — todos são exemplos de saídas não conformes.

O ponto de partida para qualquer sistema de controle eficaz é a definição clara dos critérios de aceitação. Sem essa base, o conceito de não conformidade fica subjetivo, e o controle perde sua razão de ser.

A ISO 9001:2015, em seu item 8.7, trata especificamente do controle de saídas não conformes como um requisito mandatório do sistema de gestão da qualidade. Não é uma orientação — é uma obrigação.


2. O que diz a norma sobre controle de saídas não conformes: leitura técnica do item 8.7

O item 8.7 – Controle de saídas não conformes da ISO 9001:2015 está inserido no Capítulo 8 (Operação), que trata de todos os processos necessários para atender requisitos de produtos e serviços. Sua estrutura é composta por dois subitens: 8.7.1 e 8.7.2.

8.7.1 – O requisito central

A norma determina que a organização deve garantir que saídas que não estejam em conformidade com os requisitos sejam identificadas e controladas para evitar seu uso ou entrega não intencional.

Além disso, a organização deve tomar ações apropriadas com base na natureza da não conformidade e em seu efeito sobre a conformidade de produtos e serviços. Isso se aplica também a produtos e serviços não conformes detectados após a entrega, durante ou após o fornecimento do serviço.

As ações cabíveis, segundo a norma, incluem:

  • Correção (reparar ou retrabalhar o produto/serviço)
  • Segregação, contenção, devolução ou suspensão de fornecimento de produtos e serviços
  • Informar ao cliente
  • Obter autorização para aceitação sob concessão

Um ponto frequentemente subestimado: a norma menciona explicitamente que quando saídas não conformes são corrigidas, elas devem ser reverificadas para demonstrar conformidade com os requisitos. Isso elimina a ambiguidade sobre o fluxo pós-retrabalho.

8.7.2 – Os registros obrigatórios no controle de saídas não conformes

A norma requer que a organização mantenha informação documentada que:

  • Descreva a não conformidade
  • Descreva as ações tomadas
  • Descreva as concessões obtidas
  • Identifique a autoridade que decidiu sobre a ação relacionada à não conformidade

Este subitem é frequentemente negligenciado. Muitas organizações identificam a não conformidade, tomam ação, mas não registram adequadamente quem tomou a decisão de disposição — o que cria vulnerabilidades em auditorias.


3. Interpretação aprofundada dos requisitos

O escopo vai além do controle de saídas não conformes

Um dos equívocos mais comuns é limitar o controle de saídas não conformes apenas ao chão de fábrica ou ao produto físico. A norma fala em saídas e isso inclui:

  • Saídas de processos de serviço (relatórios incorretos, projetos com erros, laudos fora do prazo)
  • Saídas de processos internos de suporte (folhas de ponto erradas, pedidos processados incorretamente)
  • Produtos intermediários em diferentes etapas do processo produtivo
  • Matérias-primas e componentes adquiridos (item 8.4) que falham na inspeção de entrada

A leitura sistêmica do item 8.7 exige que o profissional de qualidade compreenda que o conceito se aplica a qualquer saída de qualquer processo que tenha critérios de conformidade definidos.

“Uso ou entrega não intencional” — a lógica da prevenção

A frase “evitar uso ou entrega não intencional” é a essência do requisito. A norma reconhece que o erro pode acontecer. O que ela não tolera é que um produto ou serviço não conforme chegue ao cliente sem que a organização tenha tomado uma decisão consciente e documentada sobre aquela saída.

Isso significa que, em certas situações, a organização pode deliberadamente decidir entregar algo fora de especificação — desde que haja concessão documentada e autorizada. A não conformidade, em si, não é o problema que a norma quer eliminar; o problema é a ausência de controle.

Não conformidades detectadas após a entrega

Este é um ponto crítico e muitas vezes ignorado na implementação. Quando uma não conformidade é descoberta após o produto ter sido entregue ao cliente ou após o serviço ter sido prestado, o item 8.7.1 ainda se aplica.

Nesse contexto, a organização deve avaliar:

  • A extensão do problema (quantos outros clientes foram afetados? Quantos outros lotes?)
  • A necessidade de recall, recolhimento ou comunicação formal ao cliente
  • O impacto regulatório (especialmente em setores como alimentício, farmacêutico e automotivo)
  • A necessidade de ações corretivas formais (item 10.2)

4. Disposição de saídas não conformes: as quatro opções

A “disposição” é o termo técnico para a decisão sobre o destino de uma saída não conforme. A norma não enumera taxativamente as opções, mas a prática consolidada e a literatura técnica reconhecem quatro alternativas principais:

4.1 Correção (Retrabalho ou Reparo)

O produto ou serviço é submetido a uma intervenção para adequá-lo aos requisitos. Após a correção, deve ser reverificado conforme exigência explícita da norma.

Importante: Retrabalho e reparo são conceitos distintos. O retrabalho busca retornar o produto à especificação original. O reparo resulta em um produto tecnicamente aceito, mas que pode não atender à especificação original — exigindo, portanto, concessão documentada.

Exemplo prático (indústria metalúrgica): Uma peça com rugosidade superficial fora do limite especificado pode ser retrabalhada por usinagem adicional. Após o retrabalho, deve passar por novo controle dimensional e de acabamento antes de ser liberada.

4.2 Segregação e Rejeição

O produto não conforme é identificado, segregado fisicamente e rejeitado — podendo ser descartado, destruído ou devolvido ao fornecedor (no caso de matéria-prima).

Exemplo prático (indústria alimentícia): Um lote de matéria-prima com contaminação microbiológica identificada na inspeção de entrada deve ser imediatamente segregado (quarentena física), identificado com etiqueta de rejeição e devolvido ao fornecedor ou descartado conforme procedimento de gerenciamento de resíduos.

4.3 Aceitação sob Concessão

O produto ou serviço é aceito mesmo estando fora de especificação, mediante autorização formal — geralmente do cliente, de uma área técnica interna competente ou de uma autoridade regulatória. Esse é o caminho mais arriscado e que exige maior rigor documental.

A concessão deve ser documentada com clareza, especificando:

  • Qual requisito não foi atendido
  • A extensão do desvio
  • A justificativa técnica para aceitação
  • Quem autorizou
  • Se o cliente foi informado (quando aplicável)

Exemplo prático (indústria plástica): Uma peça injetada apresenta variação dimensional de 0,05mm acima do tolerado. A equipe de engenharia do cliente avalia que a variação não compromete a funcionalidade e emite uma concessão por escrito, autorizando o uso daquela quantidade específica de peças.

4.4 Inutilização ou Descarte

Quando o produto não conforme não pode ser corrigido, não cabe concessão e não há possibilidade de retrabalho — a saída é inutilizada. Este processo também deve ser documentado e, em alguns setores (farmacêutico, alimentício), pode exigir procedimentos regulatórios específicos de descarte.


5. Documentação e rastreabilidade: o que a norma exige no controle de saídas não conformes

O item 8.7.2 é objetivo: a organização deve manter informação documentada. Mas o que isso significa na prática?

O registro de não conformidade (RNC)

O documento central do controle de saídas não conformes é o Registro de Não Conformidade (RNC). Um RNC eficaz deve conter:

Tabela com os campos obrigatórios de um Registro de Não Conformidade (RNC) segundo a ISO 9001:2015 item 8.7.2, incluindo identificação, descrição da NC, controle de saídas não conformes, disposição adotada e verificação pós-correção.
Campos obrigatórios para elaboração de um Registro de Não Conformidade (RNC) conforme os requisitos da ISO 9001:2015 item 8.7.2.
CampoDescrição
Identificação únicaNúmero sequencial ou código rastreável
Data de detecçãoQuando foi identificada
Descrição da NCO que estava fora de especificação, com dados mensuráveis
Referência do requisitoQual especificação não foi atendida
Local/processo de detecçãoOnde no fluxo produtivo foi encontrada
Produto/lote afetadoPara garantir rastreabilidade
Disposição adotadaO que foi decidido e por quê
Responsável pela disposiçãoQuem autorizou — requisito explícito da norma
Verificação pós-correçãoQuando aplicável
StatusAberta, em análise, encerrada

Rastreabilidade bidirecional

A rastreabilidade não é apenas exigência da qualidade — é uma ferramenta de gestão de risco. Um bom sistema de controle deve permitir:

  • Trace forward: dado um lote de matéria-prima, saber quais produtos finais foram fabricados com ele
  • Trace back: dado um produto final com defeito, identificar o lote de matéria-prima, o turno de produção, os operadores e os equipamentos envolvidos

Em setores como automotivo (IATF 16949), farmacêutico (RDC 301/2019) e alimentício (FSSC 22000), a rastreabilidade bidirecional é ainda mais crítica e frequentemente auditada com rigor elevado.

Segregação física versus identificação

A norma exige identificação, mas a segregação física é uma boa prática que vai além do texto normativo — e que auditores experientes valorizam. Ter uma área demarcada para produtos não conformes (quarentena), com sinalização visual clara, reduz dramaticamente o risco de uso ou entrega não intencional.


6. Exemplos práticos por segmento industrial

Indústria Automotiva

Uma linha de estampagem produz suportes metálicos com embutimento incorreto. O operador identifica a peça durante inspeção em processo, aplica etiqueta de identificação (geralmente vermelha, com código da NC), move as peças para a área de quarentena demarcada e abre um RNC no sistema. O supervisor de qualidade determina que as peças serão retrabalháveis após análise das dimensões. Após retrabalho, as peças passam por nova inspeção 100%. O RNC só é encerrado após aprovação do inspetor de qualidade e registro da reverificação.

Indústria Farmacêutica

Um lote de comprimidos apresenta variação de peso acima do limite de controle no IPC (In-Process Control). A produção é interrompida imediatamente. O lote parcialmente produzido é colocado em quarentena. O departamento de Garantia da Qualidade abre uma investigação, classifica a não conformidade, avalia o impacto no produto (e em lotes anteriores e posteriores) e decide pela rejeição do lote. Todo o processo é documentado no sistema de gerenciamento de qualidade com rastreabilidade completa. O descarte segue procedimento regulatório específico.

Prestação de Serviços (Consultoria e Engenharia)

Um relatório técnico é entregue ao cliente com dados incorretos decorrentes de erro de cálculo. Após identificação (pelo próprio cliente), a empresa abre um RNC de serviço, corrige o documento, emite uma errata formal ao cliente, registra a não conformidade e avalia se há necessidade de ação corretiva para prevenir recorrência. O cliente recebe comunicação formal sobre o erro e a correção — atendendo ao requisito de “informar ao cliente” quando pertinente.

Indústria de Alimentos

Durante inspeção de recebimento, 30 caixas de ingrediente apresentam umidade acima do especificado. O almoxarife aplica identificação de “Produto em Quarentena”, separa fisicamente o material e aciona o departamento de qualidade. O analista de qualidade coleta amostras para laboratório, avalia o laudo e decide pela devolução ao fornecedor. O RNC é emitido, a ocorrência é registrada no histórico do fornecedor para gestão de fornecedores (item 8.4), e o fornecedor recebe notificação formal.


7. Erros comuns no controle de saídas não conformes

Após anos de observação em auditorias internas, externas e de certificação, é possível identificar um conjunto recorrente de falhas que comprometem a eficácia do sistema:

Erro 1: Identificação inadequada ou inexistente

O produto é identificado mentalmente como “ruim” mas sem marcação física e sem abertura de RNC. Quando há turnos diferentes, troca de operadores ou movimentação de estoque, o produto não conforme se perde no fluxo — e pode ser inadvertidamente utilizado ou expedido.

Como evitar: Estabeleça um procedimento claro (e treinado) de que qualquer produto fora de especificação deve ser imediatamente identificado com etiqueta física e registrado no sistema antes de qualquer outra ação.

Erro 2: Disposição sem autoridade competente

A decisão sobre o destino do produto é tomada pelo operador ou pelo líder de produção sem que a área da qualidade ou a autoridade designada seja consultada. Isso viola diretamente o 8.7.2, que exige identificação de quem autorizou a ação.

Como evitar: Defina em procedimento quem tem autoridade para cada tipo de disposição. Em geral: rejeição simples pode ser do analista de qualidade; concessão exige níveis hierárquicos mais elevados e, em muitos casos, aprovação do cliente.

Erro 3: Falta de reverificação após correção

O produto é retrabalhado e liberado diretamente para o fluxo produtivo ou expedição sem nova inspeção. Isso é uma não conformidade com o próprio item 8.7.1 da norma, que é explícito na exigência de reverificação.

Como evitar: O RNC só deve ser encerrado após registro da reverificação, com resultado e responsável documentados.

Erro 4: RNC de serviço ignorado

Organizações de serviços frequentemente implementam controles apenas para produtos físicos, esquecendo que serviços também têm saídas que podem ser não conformes. Erros em documentos entregues, prazos não cumpridos, escopos executados incorretamente — todos são saídas não conformes de processos de serviço.

Como evitar: Revise seu mapeamento de processos e garanta que todos os processos de serviço tenham critérios de aceitação definidos e estejam cobertos pelo procedimento de controle de saídas não conformes.

Erro 5: Confundir não conformidade com ação corretiva

Abrir um RNC é uma ação de controle imediato — tratamento do sintoma. A ação corretiva (item 10.2) é a investigação e eliminação da causa raiz para prevenir recorrência. Muitas organizações encerram o RNC após a disposição e nunca investigam a causa, gerando reincidências crônicas.

Como evitar: Estabeleça critérios para quando um RNC deve gerar uma Ação Corretiva (AC). Em geral: NC recorrente, NC de alto impacto (custo, segurança, cliente), ou NC sistêmica são gatilhos óbvios para AC.

Erro 6: Registros incompletos para auditoria

RNCs abertos, sem descrição detalhada, sem registro de disposição, sem identificação do responsável — ou, pior, fechados com justificativas genéricas como “produto descartado” sem evidências.

Como evitar: Crie campos obrigatórios no seu sistema de gestão. Um RNC só deve ser possível de encerrar quando todos os campos mandatórios estiverem preenchidos.

Erro 7: Ausência de quarentena física efetiva

A área de quarentena existe no papel, mas na prática o produto não conforme fica misturado com o conforme, ou a demarcação não é respeitada.

Como evitar: A área de quarentena deve ser delimitada fisicamente (fita, gaiola, sala separada), sinalizada visualmente e com acesso controlado. Realize auditorias periódicas específicas do ponto de quarentena.


8. Indicadores de desempenho recomendados no controle de saídas não conformes

O controle de saídas não conformes gera dados valiosos. Sem indicadores adequados, esses dados ficam represados nos registros e não contribuem para a melhoria contínua. Abaixo, os principais KPIs que profissionais de qualidade devem monitorar:

Indicadores de Volume e Taxa

Taxa de produtos não conformes internos (PPM ou %)

(Quantidade de itens não conformes / Quantidade total inspecionada) × 1.000.000 (para PPM) ou × 100 (para %)

Referência: Em indústrias automotivas de alta performance, o target é abaixo de 50 PPM internos. O benchmark varia muito por setor.

Taxa de rejeição na inspeção de recebimento

(Lotes rejeitados na entrada / Total de lotes recebidos) × 100

Monitora a qualidade dos fornecedores e a eficácia do processo de qualificação de fornecedores.

Índice de reclamações de cliente (RMA / devoluções)

(Quantidade de devoluções ou reclamações / Quantidade de unidades entregues) × 100

Este é o indicador mais crítico — falhas que chegaram ao cliente. Deve ter meta agressiva e gestão próxima.

Indicadores de Eficácia do Processo de NC

Tempo médio de ciclo do RNC

Média do tempo entre abertura e encerramento dos RNCs

Mede a agilidade do tratamento. RNCs abertos por meses indicam problemas sistêmicos no processo.

Taxa de reincidência de não conformidades

(NCs com causa raiz igual a NCs anteriores / Total de NCs abertas) × 100

Indicador de eficácia das ações corretivas. Alta reincidência significa que as causas raiz não estão sendo eliminadas.

Taxa de aproveitamento (retrabalho) vs. sucata

Distribuição das disposições: % retrabalho / % concessão / % sucata / % devolução

Revela padrões de qualidade do processo e impacto financeiro das NCs.

Indicadores Financeiros

Custo da Não Qualidade (CNQ) associado a saídas não conformes Inclui: custo de retrabalho, custo de sucata, custo de devolução ao fornecedor, custo de recall, custo de garantia.

O CNQ é um indicador poderoso para justificar investimentos em prevenção e para traduzir a linguagem da qualidade para a linguagem da alta direção.


9. Boas práticas e dicas para auditoria

Boas práticas operacionais no controle de saídas não conformes

Codificação visual por status: Adote um sistema de cores padronizado (verde = aprovado, vermelho = rejeitado, amarelo = quarentena/em análise). Isso facilita a gestão visual no chão de fábrica e reduz erros humanos.

Integração com o planejamento da produção: O sistema de controle de NCs deve estar integrado ao MES ou ERP da empresa, impedindo que lotes em quarentena sejam apontados como disponíveis para uso.

Capacitação contínua: O operador é a primeira linha de defesa. Treinamentos periódicos sobre identificação e segregação de NCs, com simulações práticas, são investimentos de alto retorno.

Revisão periódica de tendências: Reúna mensalmente os dados dos RNCs e analise tendências por processo, por turno, por equipamento, por material. O Diagrama de Pareto é seu melhor amigo aqui.

Dicas para sobreviver a auditorias de certificação

1. Tenha evidência de autoridade documentada. O auditor vai perguntar: “Quem tomou a decisão de disposição?” Seu procedimento e seus registros devem responder isso claramente.

2. Demonstre que as NCs pós-entrega são tratadas. Tenha pelo menos um exemplo documentado de NC detectada após entrega, com o tratamento completo registrado.

3. Mostre a trilha completa de um RNC. Identificação → segregação → disposição → reverificação (quando aplicável) → encerramento. Auditores adoram rastrear um caso do início ao fim.

4. Conecte NCs às ações corretivas. Mostre que seu sistema não apenas trata o produto não conforme, mas também investiga causas e previne recorrências (conexão com item 10.2).

5. Mantenha a área de quarentena auditável. Não basta ter a área; ela deve estar organizada, identificada e com registros atualizados dos produtos ali mantidos.


10. Integração com outros itens da norma

O item 8.7 não existe isolado — ele dialoga diretamente com vários outros requisitos da ISO 9001:2015:

Item 4.4 (Sistema de gestão da qualidade e seus processos): Os processos de identificação e controle de NCs devem estar mapeados como parte do SGQ.

Item 7.5 (Informação documentada): O 8.7.2 é um requisito explícito de manutenção de informação documentada — procedimentos e registros de NC são mandatórios.

Item 8.4 (Controle de processos, produtos e serviços providos externamente): NCs detectadas na inspeção de recebimento alimentam a avaliação de desempenho de fornecedores.

Item 8.5.2 (Identificação e rastreabilidade): A rastreabilidade é condição necessária para um controle eficaz de NCs — sem ela, não é possível determinar a extensão de um problema.

Item 9.1 (Monitoramento, medição, análise e avaliação): Os dados de NCs são insumos fundamentais para análise de desempenho dos processos.

Item 10.2 (Não conformidade e ação corretiva): O elo mais importante. O 8.7 trata do controle imediato da saída; o 10.2 trata da eliminação da causa raiz para prevenir recorrência. Os dois juntos formam o ciclo completo de tratamento de NCs.

Item 10.3 (Melhoria contínua): A análise dos dados de NCs é uma das principais fontes de oportunidades de melhoria contínua.

Quer saber mais sobre a ISO 9001? Nesse episódio do Qualicast, nós destrinchamos a norma e te explicamos como ela funciona na prática. Confira.


11. Como a tecnologia pode ajudar no controle de saídas não conformes

Gerenciar o controle de saídas não conformes em planilhas de Excel ou em papéis físicos é, além de trabalhoso, um risco. A falta de integração, a dificuldade de consolidar dados e a ausência de alertas automáticos comprometem tanto a eficácia operacional quanto a prontidão para auditorias.

Soluções de gestão da qualidade como o Qualiex oferecem módulos integrados para o controle de não conformidades, conectando o RNC ao fluxo de aprovações, às ações corretivas, ao histórico de fornecedores e aos indicadores de desempenho em tempo real. Com um sistema assim, é possível:

  • Abrir RNCs de qualquer dispositivo, incluindo mobile no chão de fábrica
  • Configurar fluxos de aprovação de disposição com responsáveis definidos por tipo de NC
  • Gerar relatórios e dashboards de tendências automaticamente
  • Conectar diretamente o RNC à abertura de uma ação corretiva
  • Manter toda a rastreabilidade documental acessível para auditores

A digitalização do processo não é um luxo — é uma vantagem competitiva que se traduz em menor custo da não qualidade, maior agilidade de resposta e maior segurança nos processos de certificação e recertificação.


12. FAQ – Perguntas Frequentes sobre Controle de Saídas Não Conformes

1. Qual a diferença entre não conformidade de produto e não conformidade de processo?

Uma não conformidade de produto ocorre quando a saída (produto ou serviço) não atende aos requisitos especificados — é o que o item 8.7 trata diretamente. Uma não conformidade de processo ocorre quando o processo em si não está sendo executado conforme planejado (ex.: temperatura de forno fora da faixa estabelecida). Na prática, a NC de processo frequentemente gera NC de produto, mas os controles têm diferentes pontos de ação.

2. É obrigatório ter um procedimento documentado para o controle de saídas não conformes?

A ISO 9001:2015 não exige explicitamente um procedimento documentado para o item 8.7 (ao contrário da versão 2008, que exigia o chamado “procedimento mandatório”). No entanto, o item 8.7.2 exige informação documentada sobre as saídas, ações e responsáveis. Na prática, ter um procedimento documentado é altamente recomendável — e auditores esperam encontrá-lo.

3. O que é uma “concessão” e como ela se difere de uma “disposição por retrabalho”?

A concessão é a autorização formal para usar ou liberar um produto que não atende aos requisitos especificados. Geralmente requer autorização do cliente ou de uma autoridade técnica. O retrabalho é uma ação de correção que busca trazer o produto de volta à conformidade — após o qual o produto deve ser reverificado. A concessão aceita o desvio; o retrabalho elimina o desvio.

4. Como tratar uma não conformidade descoberta após a entrega ao cliente?

O item 8.7.1 é explícito: a norma se aplica a NCs detectadas após a entrega. A organização deve avaliar a extensão do problema, comunicar o cliente quando pertinente, determinar a ação adequada (recolhimento, substituição, reparo, descarte) e registrar todo o tratamento. Em setores regulados, pode haver obrigação legal de notificação a autoridades competentes (ex.: recall em alimentos ou medicamentos).

5. Qual a diferença entre o item 8.7 e o item 10.2 da ISO 9001?

O item 8.7 trata do controle imediato da saída não conforme — o que fazer com o produto ou serviço que já está fora de especificação. O item 10.2 trata da ação corretiva — investigação da causa raiz e implementação de ações para prevenir que a NC volte a ocorrer. O 8.7 resolve o problema presente; o 10.2 previne o problema futuro.

6. Operadores do chão de fábrica podem tomar decisões de disposição?

Depende do que está definido no procedimento da organização. A norma exige que a autoridade seja documentada — mas não define o nível hierárquico. Em muitas operações, operadores são autorizados a realizar a disposição mais simples (segregação e etiquetagem), mas decisões de retrabalho, concessão ou descarte requerem aprovação do analista ou gestor de qualidade. O importante é que essa autoridade esteja formalmente definida e que o responsável esteja registrado no RNC.

7. Quantos dias posso manter um produto em quarentena?

A norma não estabelece prazo. No entanto, produtos em quarentena por tempo indeterminado são um red flag em auditorias — indicam falta de processo decisório eficaz. Recomenda-se definir internamente um prazo máximo para disposição (ex.: 5 dias úteis para NCs de baixa complexidade), com escalonamento automático para o gestor quando o prazo não for cumprido.

8. Produtos não conformes de fornecedores precisam ser registrados no mesmo sistema de RNC interno?

Sim. A rastreabilidade exige que qualquer saída não conforme — independentemente da origem (interno ou externo) — seja registrada no sistema. Além disso, os registros de NC de fornecedores alimentam o processo de avaliação e qualificação de fornecedores (item 8.4), sendo insumo fundamental para a gestão da cadeia de suprimentos.


Controle de saídas não conformes: muito mais do que registro

O controle de saídas não conformes é muito mais do que um requisito de norma a ser cumprido para fins de certificação. É uma ferramenta estratégica de gestão que, quando bem implementada, protege o cliente, preserva a reputação da organização, reduz custos operacionais e alimenta o ciclo de melhoria contínua.

A eficácia do seu sistema de controle de NCs pode ser medida por uma pergunta simples: se uma não conformidade ocorrer agora, o seu processo garante que ela será identificada, controlada, tratada e registrada corretamente — sem qualquer chance de chegar ao cliente de forma não intencional?

Se a resposta for “sim, com evidências documentadas” — seu sistema está no caminho certo. Se houver qualquer hesitação, os pontos abordados neste guia oferecem o roteiro para fechar as lacunas.

Gestores e analistas da qualidade que dominam tecnicamente o item 8.7 e o integram de forma eficaz ao seu SGQ constroem sistemas mais robustos, superam auditorias com mais confiança e, principalmente, entregam resultados concretos para o negócio.


Referências técnicas

  • ABNT NBR ISO 9001:2015 – Sistemas de gestão da qualidade – Requisitos
  • ISO 9000:2015 – Sistemas de gestão da qualidade – Fundamentos e vocabulário
  • ABNT ISO/TR 10013:2021 – Diretrizes para informação documentada do sistema de gestão da qualidade
  • IATF 16949:2016 – Sistema de gestão da qualidade para organizações de produção automotiva e de peças relevantes de reposição automotiva
  • Manual de Referência AIAG – PPAP (Production Part Approval Process), 4ª edição

Este artigo foi desenvolvido para fins educativos e de orientação técnica. Para aplicação específica em seu sistema de gestão, consulte um profissional certificado em sistemas de gestão da qualidade e a versão vigente da norma ABNT NBR ISO 9001.

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